Recuperações judiciais crescem 21% e bancos reforçam “UTIs do crédito” para empresas endividadas

Por Laura Evermere 9 Min de leitura

Número de CNPJs em recuperação judicial chega a 6.341, enquanto instituições financeiras ampliam equipes, usam inteligência artificial e tentam renegociar dívidas antes que empresas recorram à Justiça.

O aumento das dificuldades financeiras enfrentadas pelas empresas brasileiras está provocando uma mudança dentro dos próprios bancos. Instituições financeiras e escritórios de advocacia estão ampliando equipes especializadas em acompanhar companhias endividadas, renegociar empréstimos e tentar evitar que problemas de caixa terminem em processos formais de recuperação judicial. No mercado financeiro, essas estruturas são frequentemente chamadas de “UTIs do crédito”.

Levantamento da RGF Associados citado pela Folha mostra que o número de CNPJs em recuperação judicial aumentou 21,2% em 12 meses e chegou a 6.341 até junho de 2026. O movimento ocorre em um ambiente ainda marcado por juros elevados, crédito mais seletivo e dificuldades financeiras em diferentes setores da economia. (C-Level)

Outro indicador ajuda a dimensionar a pressão sobre as empresas. Dados da Serasa Experian mostram que 9,2 milhões de companhias estavam inadimplentes em julho, novo recorde da série. Juntas, acumulavam 67,2 milhões de dívidas negativadas, que alcançavam R$ 238,6 bilhões. Cada negócio inadimplente possuía, em média, 7,3 contas negativadas e dívida de aproximadamente R$ 25,9 mil. (Serasa Experian)

A combinação de endividamento elevado e dificuldades de geração de caixa faz com que os credores tentem agir cada vez mais cedo. Em vez de esperar uma empresa deixar de pagar parcelas durante meses ou solicitar proteção judicial, bancos estão utilizando dados financeiros, inteligência artificial e equipes especializadas para identificar sinais de deterioração e iniciar negociações preventivas.

Como funcionam as “UTIs do crédito” dos bancos?

As chamadas “UTIs do crédito” não são unidades formais do sistema financeiro nem representam uma categoria definida pelo Banco Central. A expressão é utilizada pelo mercado para descrever departamentos especializados em empresas que apresentam sinais de estresse financeiro. Esses profissionais acompanham dívidas, fluxo de caixa, capacidade de pagamento e perspectivas do negócio para decidir se ainda existe espaço para uma reestruturação.

Um dos exemplos citados pela Folha é o Santander. A equipe da instituição dedicada a esse tipo de operação passou de 13 para 33 profissionais entre 2025 e 2026 e acompanha aproximadamente 1.500 empresas de diferentes setores que apresentam algum nível de dificuldade financeira. (C-Level)

O trabalho pode envolver renegociação de vencimentos, alteração de garantias, alongamento de prazos e reorganização da estrutura da dívida. Para o banco, conseguir recuperar uma empresa antes que ela entre em recuperação judicial pode aumentar as possibilidades de recebimento. Para a companhia devedora, uma negociação antecipada pode evitar parte dos custos e da complexidade associados a uma reestruturação judicial.

A tecnologia também passou a ocupar espaço nesse processo. Bancos estão investindo em inteligência artificial e análise de dados para identificar mudanças no comportamento financeiro das empresas e melhorar o diagnóstico dos créditos considerados problemáticos. O objetivo é detectar sinais de deterioração com antecedência suficiente para que uma solução seja negociada antes de uma ruptura mais grave. (C-Level)

Por que tantas empresas estão enfrentando dificuldades financeiras?

Os juros ainda elevados são um dos componentes do problema. Empresas que precisam refinanciar dívidas contratadas anteriormente podem encontrar condições mais caras, enquanto aquelas dependentes de capital de giro precisam dedicar uma parcela maior de suas receitas ao pagamento de despesas financeiras. Mesmo com o início do ciclo de redução da Selic, as condições de financiamento continuam restritivas para muitos negócios.

A Serasa Experian já havia identificado esse cenário no início do ano. Ao analisar os pedidos de recuperação judicial de janeiro, a instituição afirmou que o custo de carregamento das dívidas continuava pressionando as empresas, ao mesmo tempo em que a desaceleração da atividade econômica começava a afetar geração de receitas e fluxo de caixa. Naquele mês, 53 processos de recuperação judicial envolveram 126 CNPJs. (Serasa Experian)

A situação é particularmente delicada entre negócios menores. Dos 9,2 milhões de CNPJs inadimplentes registrados em julho, 8,7 milhões eram micro e pequenas empresas. Isso significa que esse grupo representava a grande maioria das companhias com dívidas negativadas no país. (Serasa Experian)

Ao mesmo tempo, a necessidade de financiamento não desapareceu. A demanda das empresas por crédito cresceu 9,2% no acumulado de 12 meses até junho, segundo a Serasa Experian. Entre as micro e pequenas empresas, o avanço também foi de 9,2%. A instituição atribuiu o movimento a um ambiente econômico ainda desafiador, no qual empresas continuam buscando recursos mesmo diante de juros restritivos e desaceleração da atividade. (Serasa Experian)

Bancos tentam agir antes da recuperação judicial

O crescimento das áreas especializadas indica uma mudança importante na administração do risco de crédito. Em vez de tratar todos os casos de dificuldade financeira apenas depois do atraso, instituições estão procurando identificar empresas que ainda pagam suas obrigações, mas apresentam sinais de que poderão enfrentar problemas nos meses seguintes. Quanto mais cedo a situação for detectada, maior pode ser o conjunto de alternativas disponíveis.

Os próprios bancos, porém, precisam administrar o impacto dessas operações em seus balanços. Entre as medidas disponíveis estão provisões para perdas esperadas, restrição de novas linhas de crédito e venda de carteiras problemáticas. A Folha relata que instituições financeiras já vinham se preparando para parte dessas perdas e reforçaram estruturas destinadas a administrar créditos de maior risco. (C-Level)

O movimento também chegou aos grandes escritórios de advocacia. Áreas de reestruturação empresarial estão sendo reforçadas diante da expectativa de continuidade da demanda por renegociações, recuperações judiciais e extrajudiciais. O crescimento desse mercado acompanha casos envolvendo companhias de grande porte e amplia a necessidade de profissionais especializados em reorganização financeira e negociação entre empresas e credores. (C-Level)

Os indicadores mostram que a pressão financeira sobre as empresas permanece relevante. Em 2025, 2.466 CNPJs estiveram envolvidos em recuperações judiciais, alta de 13% e maior número da série histórica da Serasa Experian. Foram 977 processos no ano, crescimento de 5,5% em relação a 2024. A própria instituição observa que o avanço perdeu velocidade em comparação com anos anteriores, mas permaneceu em nível elevado. (Serasa Experian)

Agora, os dados de 2026 reforçam que o problema continua no radar. O aumento para 6.341 CNPJs atualmente em recuperação judicial apontado pela RGF mede um universo diferente dos novos pedidos mensais da Serasa, portanto os indicadores não devem ser comparados diretamente. Juntos, porém, eles mostram dimensões complementares do mesmo ambiente: inadimplência empresarial elevada, crédito ainda caro e uma parcela relevante de companhias buscando reorganizar suas dívidas. Nesse cenário, bancos tentam transformar dados, inteligência artificial e renegociação antecipada em ferramentas para evitar que uma dificuldade financeira se transforme em uma crise empresarial maior.

Fontes: Folha — bancos e escritórios reforçam áreas de créditos problemáticos · Serasa Experian — inadimplência chega a 9,2 milhões de empresas · Serasa Experian — recuperações judiciais em 2025 · Serasa Experian — demanda das empresas por crédito · Serasa Experian — recuperação judicial no início de 2026

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