Com o custo do dinheiro ainda elevado no Brasil, empresas reduzem o tamanho médio das captações e realizam mais operações de debêntures e notas comerciais. Movimento permite captar apenas o necessário, mas aumenta a importância da análise de risco para quem investe em crédito privado.
O ambiente de juros elevados no Brasil está modificando a maneira como as empresas captam dinheiro no mercado de capitais. Mesmo depois do corte recente da taxa básica, a Selic está em 14% ao ano, nível que mantém elevado o custo dos empréstimos e das novas emissões de dívida. Diante dessa realidade, muitas companhias estão evitando grandes captações de longo prazo e preferindo dividir suas necessidades financeiras em operações menores, estratégia que passou a ser descrita no mercado como um “fatiamento” das dívidas. (UOL Economia)
Os números do primeiro semestre de 2026 mostram claramente essa transformação. As emissões de debêntures movimentaram R$ 169,8 bilhões, queda de 12,1% em comparação com o mesmo período de 2025. As notas comerciais, por sua vez, somaram R$ 27,1 bilhões, recuo de 11,4%. Apesar da redução do dinheiro captado, a quantidade de operações seguiu na direção contrária: foram realizadas 278 emissões de debêntures, crescimento de 3,7%, enquanto as emissões de notas comerciais saltaram de 86 para 123, avanço de 43%. (UOL Economia)
Na prática, as empresas continuam utilizando o mercado de capitais para financiar suas atividades, mas estão evitando assumir compromissos muito grandes de uma única vez. Com juros elevados, emitir uma dívida bilionária com prazo longo significa travar custos financeiros elevados durante vários anos. Ao realizar operações menores e em momentos diferentes, a companhia pode levantar somente os recursos necessários para determinada necessidade e posteriormente voltar ao mercado caso as condições se tornem mais favoráveis. (UOL Economia)
O comportamento também revela uma postura de cautela diante das expectativas para os juros brasileiros. Segundo as projeções mencionadas na reportagem publicada nesta quinta-feira (20), o mercado espera que a Selic continue elevada durante um período prolongado, chegando a 12% apenas no fim de 2027. Isso significa que empresas endividadas precisarão administrar cuidadosamente seus vencimentos, enquanto aquelas que pretendem investir terão de avaliar se vale a pena assumir novas dívidas nas condições atuais. (UOL Economia)
Valor médio das captações diminui
A redução no tamanho das operações aparece de maneira evidente quando se observa o valor médio das emissões. No primeiro semestre de 2025, uma emissão de debêntures movimentava, em média, R$ 720,71 milhões. Na primeira metade de 2026, esse número recuou para aproximadamente R$ 610,8 milhões. O movimento mostra que as companhias não abandonaram o mercado de crédito privado, mas passaram a buscar quantias menores em cada operação. (UOL Economia)
A mudança foi ainda mais expressiva entre as notas comerciais. O valor médio caiu de aproximadamente R$ 355,9 milhões no primeiro semestre de 2025 para R$ 220,5 milhões no mesmo período deste ano. Como esse instrumento normalmente possui estrutura mais simples e pode ser utilizado para necessidades de prazo mais curto, ele ganhou espaço principalmente entre empresas que precisam reforçar o caixa sem necessariamente realizar uma emissão de dívida de grande porte. (UOL Economia)
Para as companhias, essa divisão pode funcionar como uma forma de reduzir o risco de contratar recursos caros por períodos excessivamente longos. Uma empresa que precisa financiar estoques, capital de giro ou determinadas despesas pode buscar apenas o necessário naquele momento. Caso os juros diminuam posteriormente, novas captações poderão ser feitas em condições melhores, evitando que toda a estrutura financeira fique presa às taxas atuais.
Isso não significa, porém, que o endividamento tenha ficado barato ou simples. O problema central permanece: com a Selic em 14%, o custo de oportunidade do dinheiro é elevado e o investidor exige remuneração maior para assumir risco corporativo. Assim, mesmo operações menores precisam oferecer taxas suficientemente atraentes para disputar recursos com alternativas de renda fixa consideradas mais seguras.
Empresas precisam competir com títulos públicos
O cenário cria uma situação especialmente desafiadora para quem precisa captar dinheiro. De acordo com levantamento citado pela reportagem, 59,4% das emissões de debêntures analisadas estavam vinculadas ao CDI, oferecendo remuneração média equivalente a CDI mais 2,72%. Outros 24,6% dos papéis estavam indexados à inflação e pagavam, em média, IPCA mais 7,98% ao ano. (UOL Economia)
O problema é que os títulos públicos também oferecem taxas elevadas. Na comparação apresentada com dados do início de agosto, o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2032 oferecia IPCA mais 8,16% ao ano, enquanto o Tesouro Selic proporcionava remuneração próxima da própria taxa básica. Isso cria uma concorrência difícil para as companhias, porque o investidor pode encontrar retorno elevado nos títulos públicos sem assumir diretamente o risco de crédito de uma empresa privada. (UOL Economia)
Para convencer o mercado a financiar suas operações, portanto, uma companhia precisa oferecer um prêmio compatível com seu risco. Empresas financeiramente sólidas conseguem captar em condições melhores, enquanto companhias mais endividadas ou pertencentes a setores considerados frágeis podem precisar pagar taxas significativamente superiores. Quanto maior a percepção de possibilidade de inadimplência, maior tende a ser a remuneração exigida pelo investidor.
Existe ainda uma particularidade importante nas debêntures incentivadas. Esses títulos podem oferecer isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas, o que permite que determinadas emissões apresentem taxas nominais inferiores às dos títulos tributados e ainda permaneçam competitivas depois dos impostos. Mesmo assim, rentabilidade não deve ser analisada isoladamente: prazo, liquidez, qualidade do emissor e garantias também precisam entrar na decisão.
Notas comerciais ganham espaço entre empresas menores
Enquanto algumas grandes empresas adiam emissões volumosas esperando condições financeiras melhores, as notas comerciais estão ganhando relevância entre companhias pequenas e médias. Uma mudança legislativa realizada em 2021 modernizou esse instrumento, permitindo sua emissão eletrônica e ampliando o grupo de empresas que pode utilizá-lo, incluindo sociedades limitadas e cooperativas. (UOL Economia)
Essa característica ajuda a explicar o crescimento de 43% no número de emissões registrado no primeiro semestre. A nota comercial costuma apresentar uma estrutura relativamente mais rápida e simples e pode atender necessidades imediatas, como capital de giro, reforço de caixa ou financiamento de despesas operacionais. Para empresas que não precisam captar centenas de milhões de reais, essa flexibilidade pode ser especialmente interessante.
O avanço também mostra uma mudança na relação entre empresas e o mercado de capitais. Com o crédito bancário caro e mais seletivo, algumas companhias estão procurando investidores diretamente por meio de instrumentos financeiros. Bancos e instituições especializadas podem atuar na estruturação e distribuição dessas operações, aproximando os emissores de fundos e investidores interessados em crédito privado. (UOL Economia)
O crescimento desse mercado, entretanto, depende da confiança dos compradores dos títulos. Se aumentarem os casos de inadimplência, renegociação ou recuperação judicial, investidores podem exigir taxas maiores ou simplesmente reduzir sua exposição a determinados setores. Isso faz com que as condições financeiras de grandes empresas endividadas tenham impacto que pode ultrapassar os próprios negócios e atingir a percepção de risco de todo o mercado.
Recuperações judiciais aumentam preocupação com crédito privado
Esse risco ganhou ainda mais relevância em 2026. O número de empresas em recuperação judicial no Brasil passou de 3.823 no segundo trimestre de 2023 para 6.341 no segundo trimestre deste ano, aumento de 65,8%. Agronegócio, transporte, logística e varejo estão entre os segmentos que contribuíram para essa expansão, em um ambiente marcado por juros altos e dificuldades para refinanciar dívidas. (Folha de S.Paulo)
Um exemplo recente mostra como problemas corporativos podem atingir diretamente quem investe em renda fixa. O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia envolve uma dívida declarada de R$ 17,3 bilhões e alcança instrumentos como debêntures, notas comerciais e certificados de recebíveis. Dependendo do andamento do processo, investidores podem enfrentar suspensão de pagamentos, alongamento dos vencimentos ou outras alterações nas condições originalmente contratadas. (UOL Economia)
O caso ajuda a desfazer uma percepção equivocada de que qualquer produto classificado como renda fixa oferece segurança semelhante. Na prática, comprar uma debênture significa financiar uma companhia. Se essa empresa enfrentar dificuldades financeiras, o investidor pode sofrer perdas. Além disso, a venda antecipada no mercado secundário nem sempre é simples, especialmente quando a situação financeira do emissor piora e outros investidores deixam de querer aquele título. (UOL Economia)
É justamente por isso que os juros elevados criam uma situação ambígua para o investidor. Por um lado, os retornos oferecidos pelo crédito privado podem parecer bastante atrativos. Por outro, o mesmo ambiente de juros altos que aumenta as taxas desses papéis também pressiona o caixa das empresas, encarece a rolagem das dívidas e pode elevar o risco de inadimplência.
Investidor precisa analisar risco além da rentabilidade
Outro ponto fundamental é que debêntures e notas comerciais não possuem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Diferentemente de produtos bancários elegíveis à proteção, o investidor de crédito corporativo assume diretamente o risco do emissor. Se a empresa deixar de cumprir suas obrigações, não existe uma garantia geral do FGC para ressarcir o dinheiro aplicado nesses instrumentos. (UOL Economia)
Antes de investir, portanto, é necessário avaliar indicadores como endividamento, geração de caixa, capacidade de pagamento, setor de atuação, vencimento do título e eventuais garantias. Uma taxa significativamente superior à encontrada em títulos públicos pode representar uma oportunidade, mas também pode sinalizar que o mercado está cobrando um prêmio maior porque enxerga riscos adicionais naquela empresa.
Também é importante observar a liquidez. Alguns títulos corporativos possuem negociação relativamente limitada no mercado secundário, o que pode dificultar a saída antecipada. Se o investidor precisar vender justamente durante um período de deterioração financeira da empresa, poderá encontrar compradores somente mediante descontos elevados. Esse risco ficou evidente em episódios recentes envolvendo companhias altamente endividadas. (UOL Economia)
Por isso, a diversificação ganha importância no crédito privado. Concentrar parcela elevada do patrimônio em títulos de uma única empresa ou setor aumenta o impacto de uma eventual inadimplência. Fundos de crédito podem proporcionar diversificação, mas também estão sujeitos a perdas quando os títulos presentes na carteira se desvalorizam ou quando emissores deixam de cumprir seus compromissos.
Juros elevados devem continuar influenciando as empresas
O comportamento das emissões durante o restante de 2026 dependerá principalmente da trajetória dos juros, das condições econômicas e da confiança dos investidores. Caso as expectativas de redução da Selic ganhem força, empresas poderão voltar a realizar operações maiores e de prazos mais longos. Se as taxas permanecerem elevadas, a tendência de captações menores pode continuar.
O ambiente político e econômico também deverá influenciar essa decisão. Como 2026 é ano eleitoral, oscilações nas expectativas fiscais, no câmbio e na curva de juros podem alterar rapidamente o custo de uma emissão. Para uma companhia que precisa levantar centenas de milhões de reais, uma pequena mudança nas taxas pode representar uma diferença significativa nas despesas financeiras acumuladas durante vários anos. (UOL Economia)
Enquanto isso, o “fatiamento” das dívidas aparece como uma resposta pragmática ao atual cenário. Em vez de abandonar o mercado de capitais, empresas estão adaptando o tamanho e o momento das operações, buscando preservar flexibilidade enquanto aguardam condições melhores. O aumento da quantidade de emissões simultaneamente à redução dos volumes captados mostra claramente essa mudança de comportamento. (UOL Economia)
Para o investidor, o momento oferece taxas elevadas, mas exige seleção mais cuidadosa. Renda fixa corporativa continua sendo crédito, e retorno maior normalmente vem acompanhado de algum nível adicional de risco. Em um cenário no qual juros altos pressionam simultaneamente empresas e consumidores, entender quem está tomando o dinheiro emprestado pode ser tão importante quanto observar a taxa oferecida pelo investimento.
Fontes
UOL Economia — Empresas “fatiam” dívidas diante dos juros altos
UOL Economia — Recuperação da Casas Bahia e impacto na renda fixa
Folha de S.Paulo — Recuperações judiciais avançam com juros elevados