Balanços de Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil aumentam cautela dos investidores

Por Laura Evermere 14 Min de leitura

Resultados do segundo trimestre de 2026 mostram lucros relevantes nos maiores bancos brasileiros, mas avanço das provisões, inadimplência e maior seletividade na concessão de crédito fazem investidores olhar além dos números positivos.

Os resultados do segundo trimestre de 2026 dos maiores bancos brasileiros colocaram novamente o setor financeiro no centro das atenções dos investidores. Itaú Unibanco, Bradesco, Santander Brasil e Banco do Brasil apresentaram situações diferentes em seus balanços, mas um elemento aparece de forma recorrente: a preocupação com a qualidade do crédito. Levantamento divulgado nesta quinta-feira, 20 de agosto, aponta que as provisões para possíveis calotes dos grandes bancos aumentaram de aproximadamente R$ 40 bilhões para R$ 47 bilhões em apenas um trimestre, mostrando que as instituições estão reforçando suas proteções contra eventuais perdas. (SpaceMoney)

Esse movimento acontece mesmo com os bancos ainda registrando lucros expressivos. Considerando Bradesco, Itaú, Santander, Banco do Brasil e BTG, o lucro conjunto chegou a aproximadamente R$ 30 bilhões entre abril e junho, crescimento de 11,1% em relação ao mesmo período de 2025, segundo levantamento da Elos Ayta citado pela imprensa especializada. O contraste entre lucros elevados e aumento das provisões ajuda a explicar por que os balanços não estão sendo analisados apenas pelo resultado final. (SpaceMoney)

A atenção está principalmente sobre a possibilidade de deterioração do crédito das famílias e de determinados setores empresariais. Grandes bancos brasileiros vêm reduzindo exposição a operações consideradas mais arriscadas e aumentando a participação de empréstimos com garantias ou destinados a clientes de maior renda. Cartões de crédito e empréstimos pessoais sem garantia estão entre os produtos tratados com maior seletividade. (Reuters)

Itaú mantém resultados robustos e elevada rentabilidade

O Itaú Unibanco permanece em uma posição de destaque entre os grandes bancos privados. No segundo trimestre de 2026, o conglomerado registrou lucro líquido próximo de R$ 12,4 bilhões, mantendo uma sequência de resultados robustos. A instituição também segue apresentando indicadores de rentabilidade elevados em comparação com grande parte dos concorrentes, algo que ajuda a explicar a percepção de maior resiliência do banco em períodos de deterioração do ambiente de crédito. (Folha de S.Paulo)

A capacidade de administrar o risco de crédito é um dos principais pontos observados pelos investidores. O Itaú já vinha apresentando indicadores relativamente controlados de inadimplência e crescimento de sua carteira, enquanto mantém uma base diversificada de receitas. Para o mercado, essa combinação permite que o banco absorva melhor oscilações econômicas, embora não elimine completamente os riscos relacionados a juros elevados, endividamento das famílias e desaceleração da atividade econômica.

Outro movimento estratégico chamou atenção nesta semana. O Itaú recebeu aprovação preliminar do regulador bancário norte-americano para constituir um banco próprio nos Estados Unidos. A autorização ainda depende de outras aprovações regulatórias, mas representa uma possível ampliação da presença internacional da instituição. A estratégia ocorre paralelamente à reorganização de algumas operações latino-americanas e reforça a tentativa de concentrar recursos em mercados e segmentos considerados mais rentáveis. (Folha de S.Paulo)

Para o investidor, entretanto, o desafio é avaliar até que ponto a qualidade atual dos resultados já está incorporada ao preço das ações. Um banco pode apresentar lucro elevado e boa rentabilidade, mas suas ações não necessariamente subirão se o mercado já estiver esperando esse desempenho. Por isso, indicadores como crescimento da carteira, custo do crédito, inadimplência, margem financeira e retorno sobre patrimônio ganham tanta importância quanto o lucro nominal.

Bradesco avança na recuperação dos resultados

O Bradesco apresentou um dos balanços mais observados desta temporada. O banco registrou lucro recorrente de aproximadamente R$ 7,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, crescimento de 16,2% na comparação anual e resultado ligeiramente acima das expectativas do mercado. Os números reforçam a percepção de recuperação operacional depois de um período em que a instituição enfrentou pressão sobre rentabilidade e qualidade da carteira de crédito. (Money Times)

A recuperação do Bradesco vem sendo acompanhada especialmente por investidores que procuram sinais de que o banco consegue aproximar novamente sua rentabilidade dos níveis registrados pelos concorrentes privados. O avanço do lucro é positivo, mas a análise envolve também despesas, margem financeira, inadimplência e provisões. Em um ambiente econômico mais difícil, acelerar excessivamente a concessão de crédito poderia aumentar os riscos futuros, razão pela qual crescimento e qualidade precisam avançar de maneira equilibrada.

O cenário atual torna essa disciplina ainda mais importante. Grandes bancos estão priorizando operações com garantias e clientes considerados de menor risco, uma estratégia defensiva diante do aumento do endividamento das famílias. Dessa forma, o crescimento da carteira pode acontecer de maneira mais moderada, mas potencialmente com menor probabilidade de perdas futuras. (Money Times)

Para os acionistas do Bradesco, a continuidade da recuperação nos próximos trimestres será fundamental. Um único balanço positivo não encerra o processo de reconstrução da rentabilidade, mas o crescimento de dois dígitos do lucro no segundo trimestre fornece mais um sinal de avanço. O mercado deverá acompanhar principalmente se essa evolução continuará sem deterioração relevante da qualidade dos empréstimos.

Santander adota postura mais seletiva na concessão de crédito

O Santander Brasil também aparece no centro dessa mudança de comportamento dos grandes bancos. A instituição vem adotando uma política mais seletiva para determinadas modalidades de crédito, reduzindo a exposição a consumidores considerados mais vulneráveis ao atual ambiente econômico. Segundo informações publicadas pela Reuters, o banco está priorizando clientes de maior renda e produtos com algum tipo de garantia. (Reuters)

Essa estratégia ajuda a entender por que apenas observar o crescimento da carteira de empréstimos pode produzir uma visão incompleta sobre o desempenho de uma instituição financeira. Em determinados momentos, crescer menos pode ser uma escolha deliberada para preservar a qualidade dos ativos. Quando juros permanecem elevados e o orçamento das famílias está pressionado, empréstimos sem garantia apresentam risco maior de inadimplência.

O Santander também precisa equilibrar essa postura defensiva com a necessidade de gerar receitas. Bancos ganham uma parcela relevante de seus resultados justamente com a concessão de crédito e serviços relacionados. Uma política excessivamente conservadora pode limitar o crescimento, enquanto uma estratégia muito agressiva pode aumentar as perdas futuras. Encontrar esse equilíbrio será um dos principais desafios do setor durante os próximos trimestres.

Para investidores, a evolução do custo de risco será particularmente importante. Se a maior seletividade conseguir reduzir novas perdas e estabilizar os indicadores de inadimplência, o banco poderá colher benefícios mais à frente. Caso o ambiente econômico se deteriore além do esperado, entretanto, as provisões poderão continuar pressionando os resultados.

Banco do Brasil enfrenta preocupação com crédito rural

Entre os grandes bancos, o Banco do Brasil apresenta uma situação que merece atenção especial devido à sua forte exposição ao agronegócio. No segundo trimestre de 2026, a instituição registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões, crescimento de 3,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. A carteira de crédito alcançou aproximadamente R$ 1,31 trilhão, com avanço anual de 1,4%. (UOL Economia)

Apesar do lucro, o mercado reagiu negativamente ao balanço. Um dos principais motivos foi a inadimplência no agronegócio, que chegou a 6,27%, maior nível desde 2014 e resultado de uma sequência prolongada de deterioração. Como o Banco do Brasil possui participação histórica e estratégica no financiamento rural brasileiro, problemas nesse segmento possuem impacto particularmente relevante sobre suas perspectivas. (UOL Economia)

A reação apareceu rapidamente na Bolsa. Depois da divulgação dos números, as ações BBAS3 chegaram a cair 3,42%, sendo negociadas a R$ 18,35 e atingindo o menor patamar em aproximadamente um ano, segundo informações divulgadas em 13 de agosto. O movimento demonstra novamente que lucro positivo não significa necessariamente uma avaliação positiva do mercado quando outros componentes do balanço despertam preocupação. (UOL Economia)

O banco informou também avanços em recuperação de créditos e mantém expectativa de melhora gradual em determinadas carteiras. Ainda assim, o comportamento do agronegócio continuará sendo acompanhado de perto. Uma recuperação mais consistente poderia diminuir a necessidade de provisões, enquanto uma deterioração adicional teria potencial para pressionar novamente os resultados.

Provisões de R$ 47 bilhões acendem sinal de atenção

O ponto que une boa parte da temporada de balanços é justamente o aumento das provisões. Os grandes bancos reservam recursos antecipadamente para cobrir empréstimos que podem não ser pagos. Quando essas reservas aumentam de maneira relevante, isso não significa necessariamente que todo o dinheiro será perdido, mas mostra que as instituições identificaram um nível maior de risco em suas carteiras.

No trimestre, as provisões agregadas dos principais bancos passaram de aproximadamente R$ 40 bilhões para R$ 47 bilhões. Ao mesmo tempo, as instituições continuaram apresentando lucros robustos. Essa combinação produz um cenário peculiar para o investidor: o setor permanece altamente rentável, mas começa a construir uma proteção maior contra possíveis problemas futuros. (SpaceMoney)

A estratégia defensiva também aparece diretamente na concessão de novos empréstimos. Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil estão entre as instituições que vêm privilegiando crédito com garantia e consumidores de maior renda. A preocupação está relacionada ao endividamento das famílias e ao risco de que uma desaceleração econômica aumente os atrasos nos pagamentos. (Reuters)

Isso significa que os próximos resultados precisarão ser avaliados por dois ângulos. O primeiro será a capacidade dos bancos de preservar margens e rentabilidade. O segundo será a evolução da inadimplência. Caso os atrasos estabilizem ou diminuam, a atual postura conservadora poderá ser interpretada como uma preparação antecipada bem-sucedida. Caso continuem avançando, o mercado poderá exigir provisões ainda maiores.

O que os investidores devem acompanhar nos próximos balanços

Para quem acompanha ações bancárias, os próximos trimestres deverão exigir uma análise mais ampla do que simplesmente comparar lucros. Inadimplência acima de 90 dias, custo de crédito, provisões, margem financeira, crescimento da carteira e retorno sobre patrimônio serão alguns dos principais indicadores para entender quais bancos estão administrando melhor o atual ciclo econômico.

O setor financeiro também é um dos componentes mais importantes da Bolsa brasileira. Oscilações nas ações dos grandes bancos conseguem influenciar diretamente o Ibovespa devido ao peso dessas companhias no mercado. Em agosto, o ambiente para ações financeiras ficou mais turbulento: entre 4 e 11 de agosto, o setor chegou a perder aproximadamente R$ 112 bilhões em valor de mercado, segundo levantamento divulgado pelo Money Times. (Money Times)

Isso não significa que todos os bancos enfrentem a mesma situação. Itaú mantém indicadores robustos e elevada rentabilidade; Bradesco continua seu processo de recuperação; Santander aumenta a seletividade na concessão de crédito; e Banco do Brasil enfrenta uma questão mais específica relacionada principalmente à deterioração da carteira do agronegócio. Para investidores, essas diferenças tornam a análise individual das instituições ainda mais importante.

Os balanços do segundo trimestre de 2026 mostram, portanto, um setor que continua lucrativo, mas que está claramente mais cauteloso com o risco. O crescimento das provisões e a mudança nas políticas de concessão de crédito indicam que os próprios bancos estão se preparando para um cenário potencialmente mais difícil. A grande questão para os próximos meses será descobrir se essa cautela será suficiente para impedir uma deterioração mais significativa das carteiras ou se o aumento da inadimplência continuará pressionando os resultados.

Fontes

Reuters — bancos brasileiros reduzem exposição ao crédito de maior risco

Itaú Unibanco — Central de Resultados

Bradesco — Relações com Investidores

Santander Brasil — Divulgação de Resultados

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