Digitalização dos bancos transforma carreira no setor financeiro e reduz espaço de funções tradicionais

Por Laura Evermere 8 Min de leitura

Avanço dos aplicativos, Pix, inteligência artificial e fintechs modifica a estrutura dos bancos brasileiros e aumenta a procura por profissionais ligados à tecnologia, dados e atendimento especializado.

A transformação digital do sistema bancário brasileiro deixou de ser apenas uma mudança na maneira como os clientes movimentam dinheiro e passou a provocar alterações importantes no próprio mercado de trabalho financeiro. Dados divulgados pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) mostram que 83% das transações bancárias realizadas no país já acontecem pelos canais digitais, considerando celular e internet banking. Somente o mobile banking concentra 78% das operações, consolidando o smartphone como principal ponto de relacionamento entre consumidores e instituições financeiras. (FEBRABAN)

O crescimento é expressivo quando observado em perspectiva. Em 2025, os brasileiros realizaram aproximadamente 240,8 bilhões de transações bancárias, enquanto o número de operações pelo mobile banking alcançou 187,5 bilhões. Nos últimos cinco anos, o volume movimentado por esse canal cresceu 169%. A mudança significa que atividades antes dependentes de caixas, atendentes e estruturas físicas agora são realizadas em segundos pelos próprios clientes, modificando a função das agências e também o perfil dos profissionais procurados pelo setor. (FEBRABAN)

Agências perdem espaço e mercado de trabalho passa por transformação

A expansão digital vem acompanhada de uma redução gradual da importância das estruturas físicas. Segundo dados divulgados nesta quinta-feira (20), agências e caixas eletrônicos representam atualmente apenas 6% das transações bancárias, ante 13% em 2021. Desde 2015, aproximadamente 9,5 mil agências foram fechadas e 92,3 mil postos de trabalho bancário foram eliminados, conforme números apresentados pelo Comando Nacional dos Bancários. (UOL Economia)

Isso não significa, porém, que o setor financeiro esteja simplesmente deixando de empregar profissionais. O que ocorre é também uma mudança na composição das equipes. Processos repetitivos e transacionais podem ser transferidos para aplicativos e sistemas automatizados, enquanto atividades relacionadas a tecnologia, segurança digital, análise de dados, desenvolvimento de produtos e relacionamento especializado ganham importância.

A própria Febraban observa que as agências físicas estão se transformando em pontos voltados principalmente para operações mais consultivas. Questões complexas, como decisões financeiras relevantes, problemas de acesso, suspeitas de fraude e orientação sobre produtos, continuam criando situações nas quais o atendimento humano possui papel importante. (FEBRABAN)

Bancos ampliam investimentos em tecnologia

A dimensão dessa transformação aparece também nos investimentos realizados pelas instituições. De acordo com a Febraban, o orçamento dos bancos brasileiros destinado à tecnologia deverá chegar a R$ 50,4 bilhões em 2026. O crescimento dos investimentos acompanha uma corrida por modernização de aplicativos, infraestrutura tecnológica, inteligência artificial, segurança cibernética e ferramentas capazes de automatizar processos internos. (FEBRABAN)

Dados publicados nesta quinta-feira mostram ainda que o orçamento tecnológico do setor aumentou 58,1% desde 2021, passando de R$ 29,6 bilhões para R$ 46,8 bilhões no período considerado pelo levantamento. Esse volume ajuda a dimensionar como a tecnologia deixou de funcionar apenas como suporte operacional para ocupar uma posição central na estratégia das instituições financeiras. (UOL Economia)

Para os profissionais, a tendência amplia a importância de competências que unem conhecimento financeiro e tecnológico. Especialistas em dados, inteligência artificial, desenvolvimento de software, produtos digitais, prevenção a fraudes, segurança da informação e experiência do cliente passam a fazer parte de uma estrutura bancária muito diferente daquela baseada principalmente em grandes redes de agências.

Pix ajudou a acelerar novos hábitos financeiros

Outro elemento decisivo nessa transformação foi o Pix. Criado pelo Banco Central e lançado em 2020, o sistema de pagamentos instantâneos ajudou a consolidar o hábito de utilizar o celular para movimentações que anteriormente dependiam de dinheiro, cartões, caixas eletrônicos ou outros mecanismos bancários.

O efeito ultrapassou os pagamentos. À medida que os consumidores passaram a acessar diariamente os aplicativos financeiros, as instituições começaram a concentrar nesses ambientes contratação de crédito, investimentos, seguros, pagamentos, cartões e outros produtos. Entre os clientes considerados usuários digitais intensivos — aqueles que realizam mais de 80% das operações por determinado canal — a participação já chega a 76% da base digital, segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026. (FEBRABAN)

Essa frequência também modifica a relação entre banco e cliente. Em vez de contatos ocasionais em uma agência, o relacionamento financeiro tornou-se praticamente diário por meio do smartphone, criando demanda por serviços disponíveis continuamente e por equipes capazes de desenvolver, manter e proteger essas plataformas.

Fintechs aumentam competição por profissionais

As fintechs representam outro componente dessa transformação. Essas empresas cresceram oferecendo produtos concebidos desde o início para ambientes digitais, com estruturas físicas menores e forte utilização de tecnologia. Pesquisa da PwC sobre fintechs de crédito digital mostra, por exemplo, uma base de 86,1 milhões de clientes pessoas físicas no Brasil entre as empresas analisadas, avanço de 40% no levantamento mais recente. (PwC)

A expansão das empresas financeiras digitais aumenta a competição não apenas por clientes, mas também por profissionais. Bancos tradicionais passaram a disputar talentos tecnológicos com fintechs e empresas de outros segmentos, principalmente em áreas nas quais conhecimento de finanças precisa ser combinado com programação, dados, inteligência artificial e desenvolvimento de produtos digitais.

Ao mesmo tempo, funções tradicionais não necessariamente desaparecem por completo. Elas podem assumir caráter mais consultivo. Com as operações simples sendo resolvidas digitalmente, situações que chegam ao atendimento humano tendem a envolver problemas mais complexos, negociação, orientação financeira ou clientes que necessitam de suporte especializado.

Qualificação passa a ser decisiva para construir carreira no setor

Para quem pretende iniciar ou continuar uma carreira no mercado financeiro, a transformação indica que somente o conhecimento dos produtos bancários pode deixar de ser suficiente para algumas das funções de maior crescimento. Competências digitais e capacidade de trabalhar com dados tendem a ganhar peso ao lado das habilidades tradicionais de finanças, vendas e relacionamento.

Conhecimentos relacionados a inteligência artificial, análise de dados, segurança cibernética, experiência do usuário, meios de pagamento, Open Finance e produtos digitais podem se tornar diferenciais importantes. Para profissionais de áreas comerciais e de atendimento, habilidades consultivas também ganham relevância à medida que as operações básicas são automatizadas.

A digitalização, portanto, não representa somente a substituição do balcão pelo aplicativo. Ela está modificando a estrutura de uma das maiores indústrias do país. O banco do futuro tende a depender menos da quantidade de operações realizadas presencialmente e mais da capacidade de desenvolver plataformas digitais eficientes, proteger dados, analisar informações e oferecer atendimento humano qualificado justamente nos momentos em que a tecnologia, sozinha, não consegue resolver a necessidade do cliente. (FEBRABAN)

Fontes

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