Marie Curie, além do prêmio Nobel

Por Natália Vasconcellos*

Pioneira, talentosa, mulher, mãe, esposa, cientista, primeira professora na Universidade de Sorbonne e vencedora por duas vezes do prêmio Nobel. Marie Curie é, indubitavelmente, uma das mulheres mais extraordinárias do século XX. Ela se destaca por suas pesquisas no campo da radioatividade e, certamente, desafiou a mentalidade do seu tempo.

Marie Sklodowska Curie nasceu em 7 de novembro de 1867, na cidade de Varsóvia, numa Polônia que ainda se via vítima de opressão por uma Rússia soberana. Ela era a filha caçula de cinco filhos de um casal de professores, Bronisława Boguska e Władysław Skłodowski, ambos patriotas e muito envolvidos com movimentos que buscavam a independência de seu país. Sua mãe era diretora escolar e seu pai professor de Ciências, ambos incentivadores da educação e do progresso, algo não tão usual ao final do século XIX.

Quando tinha apenas 10 anos de idade, Marie se viu sem a presença materna: Bronisława Boguska faleceu, vítima de tuberculose. Órfã, ela lidava com a dor da perda e não vivia uma situação familiar propícia. O pai, na luta pela independência polonesa, foi demitido da universidade em que trabalhava e se viu obrigado a alugar alguns quartos de sua casa para alguns jovens, a fim de prover o sustento da família.

Mesmo sob condições extremamente adversas, Marie era uma aluna de destaque e terminou o colegial premiada, com medalha de ouro. Ela mantinha um forte desejo por seguir seus estudos e era adepta do Positivismo (corrente filosófica na qual a ciência, o progresso e o humanismo caminham juntos), numa época em que a Universidade de Varsóvia estava restrita aos homens. Para as mulheres, as opções eram bastante limitadas: casar, assumir as responsabilidades de uma casa ou, então, trabalhar com artesanato.

Sob a influência do seu anseio, convicta e ambiciosa, ela combinou com sua irmã Bronislawa que esta primeiro a ajudaria nos seus estudos médicos. Em seguida, daria ajuda para que a irmã mais velha prosseguisse seus estudos. Trabalhou de governanta no lar de um casal de parentes do seu pai e, além de conseguir algum dinheiro, conciliou o emprego com as aulas de uma universidade clandestina na Polônia, que era frequentada principalmente por mulheres que não podiam se matricular regularmente em uma instituição de ensino superior oficial. Esta universidade era nômade e sempre trocava de lugar para que não fosse encontrada pelo governo russo. A descoberta poderia resultar em prisão, mas o medo não era uma palavra que fazia parte do vocabulário de Marie Curie.

Aos 24 anos de idade, finalmente, ela partiu para Paris, cidade francesa na qual estudou Física, Química e Matemática na Universidade de Sorbonne. Residia com a irmã e estudava durante o dia e trabalhava à noite: não media esforços para seguir adiante com os seus planos. Foi a primeira mulher nessa instituição e, no ano de 1894, após concluir a graduação, conheceu seu marido, Pierre Curie, com o qual partilhou não apenas a vida, mas o amor pela ciência. Ele era instrutor na escola de Matemática e Física, estudava o efeito do calor sobre propriedades magnéticas e cedeu a Marie um laboratório, para que ela pudesse dar continuidade aos seus estudos.

Acompanhada por Pierre, Marie retornou para a Polônia, sua pátria-mãe. Tentou emprego em uma universidade na Cracóvia, que lhe foi recusado sem nenhum motivo. Por ser mulher, talvez? Acabou retornando novamente a Paris e iniciou um doutorado. Já casada com Pierre, iniciou suas investigações no campo da radioatividade, que havia sido recém descoberta em 1896 por Henri Becquerel. O termo “radioatividade”, amplamente consagrado, foi cunhado por ela.

Em 1897, Marie deu à luz sua primeira filha, Irène. A maternidade não reduziu o ritmo de trabalho dessa cientista e, junto com o esposo, em um laboratório rudimentar, sem patrocínio, ela começou a estudar os compostos minerais que produziam radiação.

O químico alemão Wilhelm Ostwald visitou o local de trabalho de Pierre e Marie. Ele declarou: “O laboratório tinha ao mesmo tempo algo de estábulo e de barracão de batatas. Se eu nunca tivesse visto aparelhos de química, acreditaria que debochavam de mim”. A falta de recursos, de equipamentos de proteção individual e de materiais adequados, além de representarem um obstáculo ao bom andamento das pesquisas, comprometia a saúde do casal.

Ela e Pierre trabalharam duro por muitos anos, expostos a radiação, vapores venenosos e condições climáticas extremas. No entanto, seus estudos não foram em vão e eles acabaram por deixar um legado. Marie concluiu que a radiação emana de dentro do átomo. No ano de 1898, descobriu dois compostos radioativos, o polônio (em homenagem ao seu país) e o rádio.

Em 1903, num mundo científico dominado por homens, Marie defendeu sua tese “Pesquisa de substâncias radioativas” e viu seu trabalho ser considerado a maior contribuição científica já feita por um doutorando. Ainda neste ano, Marie, Pierre e Becquerel dividiram o prêmio pelas “pesquisas conjuntas sobre os fenômenos da radiação descobertos pelo professor Henri Becquerel”. Marie, então, se tornou a cientista mais famosa do mundo. No ano de 1904, a parceria científica do casal Curie e de Becquerel culminou no prêmio Nobel de Física.

Nessas pesquisas, Pierre verificou, em particular, que a radiação podia matar células de um tecido orgânico doente e iniciou o estudo da radioterapia, uma das pedras angulares para o tratamento do câncer nos dias atuais. Em 1905, nasceu a segunda filha de Marie. No ano seguinte, no entanto, se tornou viúva: seu marido Pierre faleceu vítima de um atropelamento por uma carroça, sendo pisoteado por cavalos.

Uma famosa frase de Marie é: “Na vida, não existe nada a temer, mas a entender”.  Apesar do luto, seguiu com seus estudos e suas descobertas. Em 1908, tornou-se a primeira mulher a lecionar na Universidade de Sorbonne. No ano seguinte, foi nomeada professora titular na cadeira de Física Geral e, em seguida, de Física Geral e Radioatividade. Filha de professores e defensora da educação, ela acreditava que o ensino precisava ser envolvente, com menos teoria e mais experiências.

No ano de 1911, a descoberta do polônio e do rádio lhe rendeu o seu segundo prêmio Nobel, desta vez de Química. Entretanto, ela optou por não patentear a descoberta, para que outros cientistas também pudessem seguir os estudos no campo da radioatividade.

Na ocasião da conquista do prêmio, Marie estava sendo vítima de calúnias na imprensa francesa (por manter um relacionamento amoroso com um físico casado) e foi orientada a não comparecer à cerimônia de entrega pela própria Academia Nobel, que temia escândalos. Marie, firme e com extrema personalidade, respondeu: “Devo agir segundo minhas convicções. Creio que não há nenhuma relação entre meu trabalho científico e o que dizem sobre minha vida pessoal. Quando receberem essa carta, eu já estarei em Estocolmo, pronta para a cerimônia”.

Ainda em 1911, Marie participou do primeiro Congresso Solvay (famosa conferência científica), que reuniu numerosos físicos, tais como Max Planck, Albert Einstein e Ernest Rutherford. Ela foi a única mulher neste evento, que foi organizado e financiado por Ernest Solvay, químico e industrial belga.

Em 1914, foi terminada a construção do Instituto do Rádio em Paris, dedicado à pesquisa médica contra o câncer e ao tratamento da doença através da radioterapia. Ele reuniu dois laboratórios com competências complementares: o Laboratório de Física e de Química (Pavilhão Curie), dirigido por Marie Curie, e o Laboratório Pasteur, centrado em radioterapia, dirigido por Claudius Regaud. Dez anos depois, Marie tornou o Instituto do Rádio uma escola internacional de radioatividade e um centro de formação e estudo de pesquisadores de todo o mundo.

Em meio à Primeira Guerra Mundial, o Instituto do Rádio foi temporariamente fechado. Marie assumiu, então, um projeto de guerra e desenvolveu as primeiras unidades móveis de raios X a serem utilizadas em ambulâncias, apelidadas “Petites Curies”. As radiografias permitiam localizar as balas e facilitavam as cirurgias dos soldados feridos.

Entretanto, a paixão pela ciência, pelo trabalho e pela inovação não privou Marie das nefastas consequências da exposição contínua a radiação. No ano de 1934, aos 67 anos, perto de Salanches, na França, Marie faleceu, vítima de leucemia.

O Instituto Curie, situado em Paris e dedicado à investigação oncológica, leva o seu nome. Sua filha mais velha, Irène Joliot-Curie, tinha o mesmo apreço pela ciência de sua genitora e, no ano seguinte à morte de Marie, recebeu o Nobel de Química. Ela conduzia estudos com radioatividade artificial e chegou a trabalhar ao lado da mãe no Instituto do Rádio.

Marie era entusiasta e otimista com a ciência, que considerava um dos patrimônios morais mais importantes da sociedade. Pioneira, lutava por mais subsídio financeiro para as pesquisas e, certamente, o seu exemplo abriu caminho para um aumento da participação das mulheres na ciência, sub-representadas no meio, até mesmo em países desenvolvidos.

Considerada a “mãe da radioatividade”, ela abriu uma nova área do conhecimento e seus estudos foram a base para o desenvolvimento da medicina diagnóstica e terapêutica moderna. Sua liberdade, sua persistência e sua obstinação, aliadas à fé no racional e à valorização da ciência, trouxeram aos nossos olhos a melhor compreensão do mundo e do universo. Obrigada, Marie!

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BIBLIOGRAFIA

 

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*Natália Vasconcellos é associada do IFL-SP, médica neurologista pela UNIFESP, com fellowship em neurointervenção na USP – SP. É mestranda em neurociências na UNIFESP e atua em diversos hospitais de São Paulo, como o hospital Albert Einstein, hospital Samaritano Paulista, Rede D’or – São Luiz e hospital Santa Paula.

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