Crise da Petrobras seria o divórcio do governo Bolsonaro e do mercado? Veja o que esperar da Bolsa nesta segunda

SÃO PAULO – Entre economistas e analistas que acreditam que as últimas notícias sobre a Petrobras (PETR4;PETR3) representam o divórcio do governo Bolsonaro e do mercado e períodos turbulentos pela frente, e os que acreditam em um impacto mais parecido com o “Joesley Day”, quando a Bolsa teve forte queda, mas logo se recuperou, todos concordam em um ponto: a segunda-feira (22) será de volatilidade, baixa na Bolsa e queda forte da Petrobras e de ações de estatais, com destaque para as elétricas.

Na sexta-feira, após a troca de comando na estatal, o EWZ, principal ETF brasileiro negociado no mercado americano, que replica o índice MSCI Brazil, caiu 3,64% no after market, período de negociação após o fechamento regular do mercado. “Olhando o que aconteceu lá fora e considerando que o EWZ é dolarizado, espero uma queda de 2% a 2,5% na Bolsa nesta segunda, com todas as estatais estão sofrendo muito, principalmente Petrobras e Eletrobras [ELET3] – além de uma queda de 1% a 1,5% no dólar”, afirma Pedro Lang, head de renda variável da Valor Investimentos.

Um sinal de que a queda da estatal deve ser acentuada está nos ADRs da Petrobras, os recibos das ações negociados na Bolsa de Nova York. Os papéis fecharam o after market com queda de 9,55% na noite de sexta-feira (19), cotados a US$ 9,09. Na B3, as ações preferenciais da estatal já haviam fechado a sexta em queda de 6,62%, apenas com a fala de Bolsonaro de que algo iria acontecer nos próximos dias, sem especificar o que seria.

Luiz Fernando Figueiredo, sócio da Maua Capital e ex-diretor Banco Central, afirma que a queda vista no after market deve se repetir no pregão regular na segunda-feira, mas ressalta que o impacto deve ser limitado porque a discussão, por ora, não chegou a mexer com premissas fiscais.

“É só mais um sinal amarelo, bem ruim, sem dúvida, mas não é o caso de dizer que o governo deu uma guinada completa. Se fosse uma questão fiscal seria outra história. A situação das estatais sempre foi difícil, no próprio governo de Michel Temer, que era mais liberal, coisas assim aconteceram. A sinalização péssima, mas tendo o fiscal preservado, não é algo que muda completamente o ambiente”, diz Figueiredo.

Roberto Attuch Jr., fundador e CEO da Ohmresearch, já tem uma visão mais pessimista sobre o cenário que está se desenhando. “Tem gente que está colocando panos quentes e comparando a situação atual com o ‘Joesley Day’, no sentido de achar que a Bolsa vai cair muito na segunda-feira e daqui a um mês ninguém mais vai pensar nisso. O governo pediu de fato o divórcio do mercado, as credenciais do mercado perante o governo foram fortemente abaladas. O impacto imediato pode não ser tão extremo como o ‘Joesley Day’, mas vai ser mais duradouro”, diz.

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Elétricas são o próximo alvo

Além da troca na direção da Petrobras, o mercado deve reagir à outra fala do presidente Jair Bolsonaro. Em conversa com apoiadores no sábado (20), após dizer que decidiu afastar Roberto Castello Branco porque os reajustes dos preços dos combustíveis este ano foram uma “covardia”, o presidente prometeu agir também no mercado de energia elétrica. “Vamos meter o dedo na energia elétrica, que é outro problema também”, afirmou.

Luiz Fernando Figueiredo afirma que o combo entre a troca de comando da Petrobras e a menção às elétricas, deve levar todas as estatais a sofrer muito. “As empresas públicas sempre têm um desconto, porque sempre estão sujeitas a passar pelo que aconteceu na Petrobras. Mas o desconto vai aumentar porque agora não é mais só uma dúvida, na prática aconteceu uma interferência política firme numa empresa pública. Agora, isso vai para as outras ou não? Pelo que parece, o presidente disse que não vai ficar só na Petrobras”, afirma.

Lang, da Valor Investimentos, diz que, além da Petrobras – que pode repetir uma queda parecida com a de sexta-feira, de cerca de 7% -, as ações da Eletrobras e de distribuidoras, como Cemig (CMIG4) e Light (LIGT3), também devem ter fortes perdas, contaminadas pelo aumento das incertezas sobre o setor elétrico.

Para Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, os mercados vão ficar “bem nervosos” na segunda-feira, com impactos não só na Bolsa, como em juros e câmbio. Para ele, as últimas sinalizações do governo extravasam da questão Petrobras e das elétricas e se espalham pela discussão sobre a privatização de empresas, que era vista como uma das saídas para os problemas fiscais.

“No início do governo, Bolsonaro deixava bem claro que não era a favor de privatizar, mas o ministro Paulo Guedes insistia e ele cedia. Agora, a gente começa a ter certeza de que o Bolsonaro da época da campanha não era ele. Ele foi eleito, mudou toda a postura e as privatizações da Eletrobras, dos Correios e de outras empresas devem ficar para trás”, diz Agostini, acrescentando que ao abandonar a agenda de privatizações, o governo eleva o risco fiscal do país. “Se nada for feito em relação a isso, pode ter certeza que o mercado fica ainda pior.”

Petrobras

Bruno Musa, sócio da Acqua Investimentos, destaca que o general Joaquim Silva e Luna, indicado por Bolsonaro para assumir a presidência da Petrobras no lugar de Castello Branco, não tem experiência no setor de petróleo e gás, por isso a reação do mercado deve ser ainda pior. “Interferência política nunca é bem vista pelo mercado e os investidores já estão refletindo isso”, afirma.

Adriano Pires, diretor e fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e um dos maiores especialistas em petróleo do país, acrescenta que, além da falta de experiência, o fato de Silva e Luna ser um general também não deve ser bem digerido pelo mercado.

“O mercado enxerga como militarização da empresa. E como Bolsonaro continuou falando no fim de semana que a gasolina poderia ser 15% mais barata, fica a dúvida: o general vai mudar a política de preços da Petrobras?”, questiona Pires. “O próprio general deu uma declaração ruim ao dizer que ‘como presidente da Petrobras ele tem que cuidar dos investidores e dos brasileiros’. Na verdade, ele deveria dizer: ‘Como presidente da Petrobras, tenho que cuidar dos investidores e o presidente Bolsonaro, dos brasileiros”, diz.

A indicação de Silva e Luna precisa, no entanto, ser aprovada pelo conselho de administração da Petrobras, já que Bolsonaro não tem poder formal para demitir Castello Branco. O conselho,  formado por membros indicados pelo governo, mas que atuam com independência, se reunirá na terça-feira (23) para discutir a troca.

Fontes consultadas pelo InfoMoney, próximas aos membros do conselho, dizem que o nome do general deve ser aceito pelos membros apesar do voto dos acionistas minoritários, que deve ser contrário à troca de comando.

Pires, do CBIE, também acredita que a troca deve ser aprovada. Em sua opinião, a mudança no comando em si não representa um problema, mas sim a forma como o presidente tem se comunicado. “O mercado adora jogar gasolina na fogueira, mas está exagerando na reação, porque Bolsonaro dá margem para isso e deixa dúvidas no ar. Mas trocas de comando acontecem. E o presidente de estatal tem que olhar de fato o interesses do acionista majoritário, do governo, não pode dizer simplesmente ‘dane-se’”, diz.

O fundador do CBIE diz que apesar de ser respeitado pelo mercado, Castello Branco se equivocou ao dizer que os caminhoneiros não eram um problema da estatal. “No governo Dilma, a Petrobras só olhava o interesse do acionista majoritário, agora só olha o interesse do acionista privado, e também não é assim. Mas concordo que para chegar a um denominador comum, o presidente da Petrobras tem que tratar da Petrobras e o presidente da República dos brasileiros, criando politicas públicas que impeçam que a volatilidade do petróleo seja transferida ao consumidor, principalmente  na pandemia.”

O CEO da Ohmresearch, não descarta por completo a hipótese de o conselho desaprovar a indicação de Silva e Luna. “Tem muita gente que defende que o conselho não deve aceitar”, diz Attuch. “Está no estatuto da Petrobras que qualquer subsídio sobre os combustíveis deve ser pago pelo controlador, o governo. Se querem trocar o CEO porque o governo não está satisfeito com a política de preços, ao não reconduzir Castello Branco, o conselho estaria cumprindo com seu dever? O conselho tem que fazer o que é bom para a empresa no longo prazo”, completa.

Ele diz ainda que “não é exagero dizer que a Petrobras ficou uninvestable [não investível]” e está em uma situação de “perde-perde”. “[A Petrobras] Não vai se beneficiar da recuperação que está acontecendo nos preços do petróleo. E como não tem estratégia nenhuma em renováveis, também não vai ganhar em outras frentes, a tese de médio prazo fica comprometida”, avalia Attuch.

Agostini também é crítico em relação à mudança de controle na empresa. “A repercussão é muito negativa. Com certeza, na segunda-feira, a ação da Petrobras vai cair ainda mais porque fica evidente que essa decisão acontece pelo fato de que a Petrobras tem como seu sócio majoritário a União. Mas ela é também uma empresa de capital aberto, então ela deve satisfação ao mercado, ela tem que cumprir as regras de compliance”, diz Agostini.

Bolsonaro de olho nas eleições 2022

Para Attuch, a troca na Petrobras deixa claro que Bolsonaro “começou a campanha de 2022 na sexta-feira”. “O que propiciou a mudança na Petrobras foi puramente um cálculo político do presidente: ele chegou à conclusão de que a política de preços da Petrobras é inconsistente com o plano dele de reeleição. É tão simples quanto isso.”

O economista-chefe da Austin Rating concorda que as atitudes recentes do presidente têm sido totalmente orientadas pela eleição. “Em 2018, Bolsonaro apoiou a greve dos caminhoneiros e depois teve um forte apoio dos caminhoneiros na eleição. Ele está de olho no apoio da categoria na eleição de 2022”, completa Agostini.

Guedes enfraquecido

No mesmo evento em Campinas no qual falou sobre mudanças no setor elétrico, na tarde de sábado, Bolsonaro também disse que a outra mudança citada por ele durante o dia, sobre novas trocas no governo, será de peso e envolverá o seu primeiro escalão. “A gente vai fazendo as coisas, vai mudando, vai melhorando. Eu não tenho medo de mudar, não. Semana que vem deve ter mais mudança aí para… E mudança comigo não é de bagrinho, não, é tubarão”.

As falas do presidente suscitaram dúvidas sobre a permanência de Paulo Guedes à frente do ministério da Economia. Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, concorda que a troca no comando da Petrobras reforça a visão de que Guedes está enfraquecido e Bolsonaro está focado na reeleição. “Como o Bolsonaro vai reagir a isso? A alternativa de represar os preços o mercado já conhece e vai dar muito errado. Isso mostra também a fraqueza do ministro Guedes. Em 2019 ele conseguiu reverter essa indisposição, mas agora não. Isso tudo mostra também as dificuldades de gerenciamento do país nos próximos dois anos com um presidente focado na reeleição”, diz o economista da MB.

Agostini lembra que Castello Branco foi uma indicação do ministro da Economia, Paulo Guedes. “Bolsonaro já queria trocar Castello Branco, mas Guedes o convenceu a mantê-lo, mencionando os problemas que ele teria se trocasse o comando da estatal. O enfraquecimento de Guedes é mais um fator de risco que deve ajudar a azedar o mercado”, afirma.

Attuch chama a atenção ainda para outro fato deste final de semana: a fala de Salim Mattar, ex-secretário de desestatização de Bolsonaro, que disse que o ministro é “resiliente, mas não percebeu que foi vencido”. “Se ele é um liberal e o governo diz que vai intervir em energia e na Petrobras, obviamente é um sinal de que Guedes ficou muito mais fraco. Até agora ele não apareceu para dar nenhuma declaração e se ele vai ficar ou não é uma questão pessoal, mas o próprio Salim Mattar, que é muito próximo a ele diz que ele foi vencido”, comenta o CEO da Ohmresearch.

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