Com vacinas a conta-gotas, imunização no Brasil é uma das mais caras do mundo, diz ex-diretor da Anvisa

SÃO PAULO – O Brasil completou nesta quarta-feira (17) um mês do início da campanha de imunização contra a Covid-19. Nesse período, 5,5 milhões de pessoas foram vacinadas ou 2,6% da população, segundo dados reunidos pelo consórcio de veículos de imprensa junto às secretarias estaduais de Saúde.

A ferramenta Our World In Data (Universidade de Oxford) mostra que a média é de apenas 2,64 doses aplicadas a cada 100 habitantes, ante 12,43 doses no Chile, 16,51 doses nos Estados Unidos e 78,09 doses em Israel, o país mais avançado da lista.

O que explica essa discrepância entre a campanha de vacinação no Brasil e no restante do mundo? Quais são os entraves que a vacinação no país enfrenta, apesar de o Programa Nacional de Imunização (PNI) brasileiro ser considerado referência por organizações internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS)?

O InfoMoney conversou com Ricardo Oliva, ex-diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para responder as perguntas. Para ele, a falta de planejamento, que levou o país a buscar e distribuir doses “a conta-gotas” torna a campanha de vacinação brasileira uma das mais caras do mundo.

Oliva, que é médico-sanitarista e consultor de serviços em vigilância sanitária, também critica a forma de distribuição das doses. “Estamos distribuindo por população, primeiro os profissionais da saúde, depois pessoas mais idosas. E também com base na população de cada município. Mas isso não tem sentido algum. Temos mais profissionais da saúde e idosos em São Paulo do que em Boa Vista, por exemplo”, afirma. “Temos municípios que receberam dez doses de vacina, e isso não tem nenhum sentido. Era melhor esperar e mandar 100 doses de uma só vez. […] Cada uma dessas entregas custa, e custa caro. Nenhuma empresa de logística está fazendo o trabalho de graça.”

Confira os principais trechos da entrevista abaixo:

InfoMoney: Países com campanha de vacinação mais avançada garantiram grandes quantidades de doses com antecedência. O que o ritmo lento da campanha nacional reflete sobre o planejamento feito no Brasil?

Ricardo Oliva: Uma publicação do British Medical Journal, do ano passado, já mostrava a reserva dos países em relação ao número de doses pela população, e o Brasil tinha um número baixíssimo.

Por que o Brasil não fez isso? Há três razões fundamentais. Primeiro, o negacionismo do presidente Jair Bolsonaro. O segundo está no Ministério da Saúde e no ministro Eduardo Pazuello, que montou uma equipe ineficiente, substituindo profissionais da casa, que sabiam o que fazer há anos. E o terceiro motivo foi a briga entre João Doria, governador do estado de São Paulo, e o próprio presidente, que colocaram a vacina como um ponto central em uma disputa política que vai ocorrer daqui a quase dois anos.

A vacina como objeto de discussão político-eleitoral atrapalhou a capacidade do governo federal e dos estados em promover uma ação conjunta, na busca de um planejamento estratégico para a vacinação e para o combate da doença.

Em uma doença infecciosa, temos três pilares de atuação: o controle da doença, o tratamento precoce e as medidas de controle. É o padrão para qualquer nova doença infecciosa que aparece. Desde que o mundo é mundo existe quarentena para evitar doenças infecciosas que não nasceram no seu local.

Como foi a pandemia de Covid-19 por aqui? O estado brasileiro não fez controle. A vigilância epidemiológica falhou completamente, porque não bloqueou aeroportos precocemente, não fez controle de contaminados e contaminantes precocemente e não fez testes em massa. O controle da doença foi terrível.

Já sobre o tratamento precoce, não existe no caso da Covid-19. É fato. O governo ficou pregando o tratamento precoce sem base nenhuma. Por fim, quando chegamos no controle por vacinas, o governo disse que era bobagem. O controle social, pelo distanciamento e pela quarentena, não foi incentivado.

IM: Um fato marcante na pandemia foi a celeridade das agências internacionais para aprovar imunizantes. De que forma o senhor, como ex-diretor da Anvisa, avalia o trabalho da agência nacional?

RO: Parece-me que, em algum momento, houve um entendimento de que a agência não seguiria pressões políticas. O Antônio Barra Torres [diretor-presidente da Anvisa] tem sido absolutamente claro nas suas falas de que a agência está se baseando na ciência.

A Anvisa agiu nos limites das suas competências legais, com uma qualidade igual à de qualquer outra agência regulatória no mundo, fazendo coisas que ainda não tinham sido feitas antes na história do país. Não existiam no Brasil regras sobre o registro para uso emergencial de vacinas. A Anvisa fez uma regulamentação boa. Ela fez o registro do uso emergencial muito próximo do tempo que outras agências levaram para avaliar as vacinas. Inclusive na questão da Sputnik V [vacina russa contra a Covid-19], estão claras as exigências da agência. A Anvisa quer informações completas, coerentes e validadas por órgãos e cientistas independentes.

Eu avalio o trabalho da Anvisa como bom e a agência tem técnicos competentes. Mas pode piorar, assim como o Ministério da Saúde e o PNI. É preciso ficar de olho nas decisões tomadas pelo Poder Legislativo sobre a atuação da agência.

IM: Além da demora na imunização, também houve prejuízos econômicos?

RO: No consórcio de vacinas contra a Covid-19, da Organização Mundial da Saúde [Covax Facility], teríamos preços mais acessíveis do que estamos pagando agora caso tivéssemos aderido antes. O mercado está bem diferente do que no cenário pré-aprovação das vacinas. A partir do momento em que compramos as vacinas “a conta-gotas”, em pequenas quantidades, com grandes intervalos, nós vamos buscá-las também a conta-gotas.

A falta de planejamento fez com que o governo federal fretasse um avião da Azul, deixasse-o parado três dias e só então fosse buscar 2 milhões de doses de vacinas Oxford/AstraZeneca na Índia. O pior: a ação falhou. O Brasil gastou para isso e não realizou. Quando a Índia decidiu depois mandar as doses, as vacinas foram enviadas em um avião de carga normal, até pelo menor preço envolvido. Quando você não planeja algo ou planeja errado, você acaba gastando mais.

No caso do planejamento específico para distribuição de doses: estamos distribuindo por população, primeiro os profissionais da saúde, depois pessoas mais idosas. E também com base na população de cada município. Mas isso não tem sentido algum. Temos mais profissionais da saúde e idosos em São Paulo do que em Boa Vista [Roraima], por exemplo.

Eu não tenho que distribuir analisando a população do município, porque vão sobrar vacinas em um lugar e faltar para outro. Temos municípios que receberam dez doses de vacina, e isso não tem nenhum sentido. Era melhor esperar e mandar 100 doses de uma só vez. Mas o governo prefere enviar em remessas diferentes. Primeiro manda dez doses, depois mais dez, depois mais 12. Cada uma dessas entregas custa, e custa caro. Nenhuma empresa de logística está fazendo o trabalho de graça.

Outro ponto importante nessa estratégia de mandar as doses a conta-gotas é que, quanto mais fracionada é a distribuição, maior é a perda. O controle de qualidade em escala é muito melhor do que o controle de qualidade fracionado. A cada transporte de 50 doses, você arrisca essas doses na sua totalidade. Quando você carrega 5 mil doses, por exemplo, elas vão em um contêiner refrigerado, com controle de qualidade e temperatura muito melhor. Eu não tenho dúvida de que a perda será maior por conta da forma pela qual estamos distribuindo as vacinas.

Do ponto de vista econômico, nós temos uma das campanhas mais caras do mundo. Fruto direto da falta de planejamento e organização. Em outras campanhas de vacinação, distribuíamos milhões de doses em um único dia. Nas campanhas de vacinação contra gripe, especificamente, milhões de doses saem do Instituto Butantan em um só dia para chegar aos centros regionais de uma vez e, de lá, partir para os municípios, também de forma coordenada. Isso ajuda, inclusive, na comunicação sobre a campanha de vacinação.

IM: O Brasil precisa realmente de mais vacinas? Ou os acordos já assinados suprem a demanda?

RO: Temos poucas vacinas e a distribuição não está sendo feita de forma a evitar desperdícios. Ao mesmo tempo, o crescimento de contágio pela Sars-Cov-2 nas regiões Sul e Sudeste acontece entre o início do outono até o fim do inverno [final de março até final de setembro]. Então, existe ainda a possibilidade de expansão acentuada da pandemia.

Estamos começando a vacinação muito tarde para diminuir essa tendência no Sul/Sudeste. O Brasil precisa de mais vacinas e não vai conseguir produzir e disponibilizar tantas doses rapidamente, mesmo que o Butantan tenha matéria-prima e faça 1 milhão de doses por dia. Teremos que trazer mais imunizantes e, ao mesmo tempo, lidar com o aumento da pandemia.

Vejo períodos nebulosos pela frente, independentemente das variantes do novo coronavírus. A preocupação sobre as mutações apenas se soma. No momento, não são o principal problema do Brasil. Precisamos recuperar lideranças, planejar melhor, olhar para o futuro objetivamente e envolver a sociedade na busca de soluções melhores do que as que temos agora.

IM: No Brasil, empresas privadas têm se movimentado para garantir doses. Qual sua opinião sobre o movimento?

RO: O Brasil é um país onde a iniciativa privada na saúde é livre, mas apenas em caráter suplementar ao Estado. Existem clínicas de vacinação privada que importam imunizantes e as pessoas pagam por vacinas. Ter vacina na rede privada é uma realidade, mas uma campanha de vacinação é outra coisa, é bem diferente.

Fizemos campanha contra o sarampo até o começo dos anos 2000 e erradicamos o sarampo. A rede privada nunca comprou uma dose dessa vacina. Um grupo de risco para febre amarela no Brasil são os caminhoneiros. Nunca vi um empresário comprar vacinas para eles. É impossível realizar um controle no nível de “vou comprar vacinas para meus funcionários”. O dono da empresa pode comprar imunizantes, vacinar sua família e ficar por isso.

Quando qualquer um tem acesso às vacinas, perde-se o sentido de imunizar os mais necessitados primeiro. É aprofundar o abismo social que existe no país. Então é um absurdo do ponto de vista ético, social e econômico, dado o valor pelas doses que as empresas se propunham a pagar.

A iniciativa privada quer comprar vacinas? Compre as doses sem benefício fiscal e ceda 100% dos imunizantes para colocarmos na campanha de vacinação. O capital pode exercer sua função social mostrando sua insatisfação com a forma pela qual o setor político vem conduzindo a vacinação. Tem todo o direito, e deve fazer isso.

IM: O Brasil é reconhecido internacionalmente como referência em saúde pública e vacinação. Ainda somos referência?

RO: A Carla Domingues, responsável pelo PNI no ministério, estava lá há 15 anos. Sabia tudo sobre o programa. Se você perguntasse para a Carla quantas doses seriam necessárias para vacinar os idosos em Porto Alegre, ela falaria de cabeça. Aí essa gestão a tira do cargo. O sucateamento do Ministério da Saúde é absurdo.

O PNI sempre foi uma política uniforme e apoiada pelo Ministério. A liderança na Saúde fazia com que os estados percebessem falhas e melhorassem. Não há mais isso. Rompemos um elo da cadeia lá em cima, e a cadeia desmoronou por completo.

É possível recuperar o PNI? Sim, se formos rápidos. Precisa acontecer uma mudança drástica na forma de colocar pessoas que entendam do negócio no Ministério da Saúde. A pasta deixou o barco correr, e a epidemia saiu de controle. Vemos o Amazonas do jeito que está, sem oxigênio e mortes desnecessárias, porque a administração não sabe o que está fazendo. Essas mortes seriam evitadas com um mínimo de planejamento. Todos os detalhes sobre a situação critica que Manaus enfrentou deveriam ter sido vistos em dezembro, não depois que o caos aconteceu. Claro que era possível.

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