Jogos em nuvem mudam quem consegue jogá-los, não só onde

Por Laura Evermere 5 Min de leitura
Richard Lucas da Silva Miranda

Em cloud gaming, o jogador nunca chega a ter o jogo instalado no próprio aparelho. Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, explica que tudo roda em um servidor remoto, e o que aparece na tela é essencialmente um vídeo transmitido em tempo real, decodificado pelo celular, notebook ou smart TV que está do outro lado da conexão.

A LT Studios, publisher brasileira de jogos digitais com atuação no mercado de games e tecnologia, acompanha essa tecnologia como um dos pontos que mais deve mudar quem consegue jogar nos próximos anos, mais do que como se joga.

Como o jogo roda sem estar no seu aparelho?

O processamento pesado, gráficos, física, inteligência artificial dos personagens, acontece inteiramente no servidor. O dispositivo do jogador só precisa fazer duas coisas: enviar os comandos que a pessoa está dando, como apertar um botão ou mover um analógico, e receber de volta o vídeo já pronto do que está acontecendo no jogo. Nenhum processamento pesado acontece localmente, o que explica por que um celular simples consegue rodar um jogo que exigiria um computador caro se tivesse que processar tudo sozinho.

Isso funciona de forma parecida com assistir a um vídeo em streaming, com uma diferença crítica: cada comando precisa ir e voltar em poucos milissegundos para que o jogo pareça responsivo. Uma conexão instável ou distante do servidor gera atraso perceptível entre apertar o botão e ver o resultado na tela, o que compromete a experiência mais em jogos de reflexo rápido do que em jogos de ritmo mais lento, como estratégia ou aventura narrativa.

Richard Lucas da Silva Miranda
Richard Lucas da Silva Miranda

Por que isso muda quem consegue jogar?

O ganho mais direto do cloud gaming é retirar a exigência de hardware potente. Um jogo que normalmente precisaria de um console ou computador caro para rodar bem passa a funcionar em um celular de entrada, desde que a conexão de internet aguente o streaming de vídeo. Isso amplia o público potencial de um jogo para pessoas que nunca teriam acesso a ele de outra forma, incluindo quem mora em cidades sem acesso fácil a lojas de eletrônicos ou não tem condições de trocar de aparelho a cada novo lançamento importante.

No Brasil, essa promessa esbarra na desigualdade de acesso à internet de alta velocidade, o que faz o cloud gaming avançar de forma bem mais rápida em algumas regiões do que em outras. Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, nota que a tecnologia resolve um obstáculo de acesso, mas cria outro no lugar, e o segundo obstáculo tende a ser mais difícil de superar sozinho por um único estúdio.

O que muda para quem desenvolve o jogo?

Para o estúdio, rodar o jogo inteiramente em servidor abre a possibilidade de atualizar e corrigir problemas em tempo real, sem depender de o jogador baixar um novo pacote de arquivos. Richard Lucas da Silva Miranda avalia que essa flexibilidade de manutenção é, para muitos estúdios, mais valiosa no dia a dia do que o próprio alcance de público, porque simplifica correções que antes exigiam ciclos inteiros de aprovação em loja digital, às vezes levando dias só para um ajuste pequeno chegar a quem joga.

Em troca, o design do jogo passa a ter que considerar a latência como parte do projeto desde o início, algo que gêneros dependentes de reação rápida sentem mais do que jogos de ritmo pausado.

Uma mudança que ainda depende de infraestrutura

O cloud gaming não elimina a desigualdade de acesso a jogos; ele desloca essa desigualdade do preço do hardware para a qualidade da conexão à internet. Nesse contexto, Richard Lucas da Silva Miranda indica que, para grande parte do público que a tecnologia promete alcançar, a barreira deixou de ser o console, mas ainda não deixou de existir.

 

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